20 de maio de 2012

CONTA-GOTAS...Notícias


O cavalo agonizando ocupou um dia inteiro de pessoas solidárias e mobilizou a rede social
(Fotos: Facebook de Juliana Fachinelli)
SOLIDARIEDADE NO MEIO DO CAMINHO ----- O abandono de um cavalo machucado mobilizou os usuários da rede social Facebook ao longo do sábado, 19 de maio, envolvendo dezenas de compartilhamentos e centenas de desabafos e críticas contra o poder público de Uberaba – que até prova em contrário, não tomou providências, apesar dos apelos.
ANGÚSTIA ---- O pedido de socorro partiu da servidora Juliana Fachinelli, que viu o animal agonizando em terreno próximo à sua casa, no bairro Abadia, e passou praticamente o dia todo tomando providências, acompanhando, fotografando e informado o público do Facebook.
INICIATIVA ---- No final do dia, veio a solução – organizada pelos próprios moradores das proximidades, que providenciaram um guincho e transportaram o animal para o Hospital Veterinário da Fazu.
SOCORRO ---- Entre os usuários do Facebook que receberam pedidos de socorro em suas páginas estão o prefeito Anderson Adauto, deputado federal Marcos Montes, Corpo de Bombeiros, entidades ligadas à equoterapia, vereadores, a Fazu, e assim por diante.
MORAL DA HISTÓRIA ---- O cavalo não resistiu. Morreu à noite.
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NOVOS TEMPOS
Benice Maia - O poder é do povo
(Foto: Divulgação)
Diretora da Associação Mineira dos Municípios – AMM, no Triângulo Mineiro, Benice Maia (PSDB), prefeita de Itapagipe, não tem dúvida de que a Lei de Acesso à Informação – que entrou em vigor dia 16 de maio de 2012, vai democratizar as relações entre o poder público e o povo. “O poder – seja ele Executivo, Legislativo ou Judiciário, que não se adequar, será visto como inimigo da democracia e do povo”, disse ela, ao programa Entrevista Coletiva, exibido pela TV BandTriângulo, sábado, dia 19.
O QUE É DO POVO ---- Formada em Direito, Estudos Sociais e técnica em Contabilidade, a diretora da AMM/Triângulo lembrou que a Lei de Acesso à Informação, que reforça a Constituição de 1988 e foi sancionada no final de 2011 pela presidente Dilma Rousseff (PT), amplia a Lei de Responsabilidade Fiscal no que se refere à exigência de um Portal da Transparência na Internet. “Com Internet ou sem Internet, o povo agora tem direito de saber, com detalhes, tudo o que envolve o poder público” – afirmou ela.
QUEM MANDA ---- Benice Maia admitiu que muitos governantes e outros ocupantes de cargos públicos – inclusive eletivos, se julgam donos da cadeira que ocupam, do orçamento que administram e das informações relacionadas às atividades que exercem. “Isso vai acabar; a Lei de Acesso à Informação coloca as coisas nos seus devidos lugares: quem manda é o povo” – ressalta.
ORIENTAÇÕES ---- Ainda durante a entrevista ao programa comandado pelo jornalista Orlei Moreira, a prefeita revelou que a Associação Mineira dos Municípios está se organizando para orientar os prefeitos e os vereadores mineiros sobre a nova lei. “Texto informando sobre a novidade está sendo enviado a todos os prefeitos, inclusive os que não são filiados à entidade, e a todas as câmaras mineiras, e um primeiro seminário já está sendo preparado para breve” – contou Benice Maia.
SEM SAÍDA ---- Ela lembrou que a lei vale para todos os poderes – Executivo, Legislativo e Judiciário, e para todas as esferas: União, Estados, Distrito Federal e Municípios. “O povo será o principal fiscal da Lei de Acesso à Informação, com um reforço, que, com certeza, vai poder contar: o da imprensa” – avaliou o diretora da AMM/Triângulo.
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Se o cidadão quiser saber quanto a prefeitura está gastando com energia elétrica, por exemplo, basta protocolar um requerimento, e nem precisa justificar”.
_ Benice Maia, ao programa Entrevista Coletiva
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Josimar Rocha (o 2º da dir. para a esq.) - Interior sem voz na Consocial de Minas
(Foto: Divulgação)
VOZ DE UBERABA
Diretor da Ouvidoria do Transporte Coletivo de Uberaba e coordenador-geral do PT/Triângulo Mineiro, Josimar Rocha, aproveitou o direto a voz na 1ª Conferência Nacional de Transparência e Controle Social - Consocial, que acontece em Brasília, DF, para denunciar os organizadores da 1ª Consocial/Minas Gerais, promovida meses antes.
XÔ, INTERIOR ---- De acordo com ele, os delegados municipais e regionais não tiveram direito a voz no evento mineiro, e todas as propostas tiradas da conferência foram direcionadas à Consocial nacional, e portanto, sem discutir as sugestões do interior do Estado. Uberaba, por exemplo, realizou a 1ª Conferência Municipal e sediou a 1ª Consocial Regional/Triângulo Mineiro, no início de 2012.
EM PAUTA ---- Entre os objetivos das Consociais – municipais, regionais, estaduais, e agora, a nacional, está a definição de estratégias para a participação da sociedade civil no acompanhamento e controle da gestão pública e de fortalecimento da interação entre sociedade e governo.
COISA DE TUCANO ---- Ao denunciar e criticar o “silêncio” do interior na Consocial/MG, Josimar Rocha não deixou por menos. Lembrou que Minas são governadas pelo tucano Antonio Anastasia, que, segundo ele, não tem comprometimento com os avanços democráticos. Detalhe: PT e PSDB são adversários históricos, e, pra piorar, estão de olho na sucessão da petista Dilma Rousseff. Que o diga o senador tucano Aécio Neves!
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Ainda comemorando a aprovação no Exame de Ordem,
a primeira-dama de Uberaba, Angela Mairink, anuncia o
primeiro filho com o prefeito Anderson Adauto
(Foto: Divulgação)
PRIMEIRO-FILHO 
E mudando radicalmente de assunto, a notícia que deu ares românticos ao Facebook neste domingo, 20 de maio, foi anunciada pelo prefeito Anderson Adauto (PMDB), e a primeira-dama Angela Mairink. Eles estão “grávidos”. Anderson, que é pai de Polyanna Warketing – que também está grávida, e Angela, que é mãe de Izabella Mairink, esperam o primeiro filho do casal.

Neste final de semana, ganhamos um presente maravilhoso de Deus. Vamos ter um bebezinho!!!!!!!”
_Angela Mairink, no seu mural do Facebook

Angela: A vida é realmente uma caixa de surpresas! aprendi a esperar... O bebê, já tínhamos desistido... E resolvido curtir o da Popy, e ser pai/avô. Agora sou surpereendido: ser pai novamente depois de 30 anos, e com você, é realmente o coroamento de um amor compartilhado e delicioso. Vamos deixar as crianças virem ( a nossa e da Popy ). Saberemos cuidar bem delas. Assim como consegui com a Popy e você com a Bella. O tempo que me faltou para a Popy, espero ter agora, vamos curtir muito!!!! Te amo!!!!!!!!!!
_ Anderson Adauto, também na rede social
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MUI AMIGOS
Bancada petista na Assembleia Legislativa de Minas Gerais - o que inclui o  pré-candidato a prefeito de Uberaba, deputado estadual Adelmo Carneiro Leão, acaba de aderir ao movimento Veta, Dilma! Em nota oficial, a bancada pede que a presidente Dilma Rousseff vete o projeto do Código Florestal, recém-aprovado pela Câmara dos Deputados. Projeto – só pra lembrar, é baseado em relatório do deputado federal e também pré-candidato a prefeito, Paulo Piau.

Na reunião de 14 de maio a Executiva Estadual
aprovou a intervenção no PMDB/Uberaba
(Foto: Divulgação)
DE OLHO NA CAPITAL ---- E falando em Paulo Piau, os políticos e jornalistas de Uberaba amanhecem na segunda-feira, 21 de maio, com os olhos e ouvidos voltados para Belo Horizonte, onde se reúne, logo cedo, a Comissão Executiva do PMDB/MG. Expectativa é de que a Executiva defina os cinco nomes que vão integrar a Comissão Interventora do PMDB/Uberaba.
INTERVENÇÃO ---- Caberá a esta comissão gerenciar a campanha do PMDB nas eleições municipais de 2012 – inclusive no que se refere à escolha do candidato a prefeito. A intervenção aprovada na semana passada pelo PMDB/MG não extinguiu o diretório de Uberaba, mas tirou todos os poderes de decisão sobre o processo 2012.
INVERSÃO ---- Assinado pelos membros do diretório de Uberaba, o ex-presidente Marcelo Palmério e o secretário-geral João Caldas, o pedido de intervenção teve o objetivo de tirar das mãos do prefeito Anderson Adauto, a aprovação certa do seu pré-candidato, no caso, o secretário de Governo, Rodrigo Mateus. Pra muita gente, a comissão interventora surgirá com uma pauta definida: aprovar a candidatura de Paulo Piau, que seria o grande articulador da intervenção.
CASSADO ----- Em sua edição anterior, Conta-Gotas revelou que Rodrigo Mateus se sente alijado do processo. Ele chegou a pedir que seu nome seja retirado da lista dos pré-candidatos a prefeito de Uberaba. “A comissão interventora escolherá o candidato do PMDB, que será o Paulo Piau; não haverá convenção como se conhece” – afirmou ele à coluna.  “Acabou” – disse Rodrigo.

OLHARES INVERTIDOS
Se o pessoal de Uberaba está de olho em BH, a recíproca também é verdadeira. As direções estaduais das legendas andam de butuca nos acontecimentos uberabenses. A presidente do PCdoB/Uberaba, Sumayra Oliveira, por exemplo, está de malas prontas pra capital, onde apresenta um extenso relatório sobre a situação eleitoral em Uberaba, à direção mineira do partido. Leva a tiracolo os companheiros comunistas Lourival dos Santos (vereador), Marcos Gennari (vice-presidente) e Wellington Félix Cornélio (secretário de organização). Da parte que toca ao comando estadual, estarão presentes o vice-presidente, Wadson Ribeiro, e o secretário de organização, Richard Romano.
EM PAUTA ---- A menos de um mês das convenções que vão homologar candidaturas e alianças, os comandos partidários municipais acertam, com as esferas estaduais, as alternativas de acordos


DISPUTA ACIRRADA
Temporada de eleição municipal é assim: planejamentos e mais planejamentos para refletir a Uberaba do futuro. Primeiro, foi o PPDI – Planejamento Participativo e Desenvolvimento Integrado, lançado pelo deputado federal e pré-candidato a prefeito pelo PMDB, Paulo Piau, para   pensar Uberaba para os próximos 20 anos. Agora, o PT lança o movimento Uberaba da Gente/Construindo o Futuro.
DETALHE ---- Nos dois casos, os lançamentos mereceram pompa e circunstância, além de site e páginas nas redes sociais, com organização e marketing de gente grande.

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CURIOSIDADE ESPECIAL
Folha de S.Paulo
Ilustríssima
Edição 20/05/2012

O PRÍNCIPE VALENTE
Tó Araújo leva o Teatro da Vertigem para o Bom Retiro
RESUMO ----- Há 30 anos, o mineiro (de Uberaba) Antônio Araújo desembarcou a contragosto em São Paulo. Formou currículo sem igual entre diretores brasileiros e, graças a uma personalidade obcecada, "que se alimenta de crises", como diz um colaborador, deu projeção internacional a seu Teatro da Vertigem, que estreia peça no próximo mês.

Quando "BR-3" foi eleito na Quadrienal de Praga o melhor espetáculo em cinco anos,
o Teatro da Vertigem ganhou status internacional           (Foto: Divulgação)
Por GUSTAVO FIORATTI
HÁ ALGO DE contraditório na falta de confiança que Antônio Araújo sente na direção - de carros, não de peças teatrais. Ele se diz inseguro atrás de um volante e conta que faz sempre os mesmo trajetos: de sua casa, no bairro da Consolação, para a Escola de Comunicação e Artes (ECA) da USP, onde dá aulas; da USP para a sede de sua companhia, o Teatro da Vertigem, no Bexiga; do Bexiga para o Bom Retiro, onde o grupo estreia um novo espetáculo no próximo mês.
O caos no trânsito paulistano o assusta, e por isso ele só tirou sua habilitação em 2007, aos 41, depois de 25 anos morando na capital paulista, onde chegou aos 15. 
Até então, era um tímido filho de professores do ensino médio em Uberaba (MG), conhecido como Toninho; frequentava a igreja e escondia na casa da avó uma série de livros que os pais consideravam inapropriados para os 11 anos que tinha na época -"Anna Karenina", de Tolstói, incluído.
Entre o menino Toninho e o encenador Tó, como o chamam hoje amigos e colegas de trabalho, houve uma espécie de batismo não religioso. Incentivado pelos pais e um tanto contrariado, mudou-se para São Paulo. Chegou de ônibus à antiga rodoviária, no centro da cidade. Morou em pensões para rapazes. 
O medo que o acometeu no começo logo cedeu lugar a uma "sensação de grande liberdade".
Tó passou a frequentar o circuito teatral, admirou-se com peças de Gerald Thomas, Zé Celso e Antunes Filho, formou-se em teatro na USP e fundou, em 1991, um grupo de espírito desbravador. "O Vertigem assumiu riscos extraordinários", diz a crítica Silvana Garcia, sobre a "ousadia" de encenar espetáculos fora do palco italiano, em prisões, igrejas e hospitais, não necessariamente desativados.
BARCO 
A peça "BR-3" (2008), por exemplo, navegava sobre uma barcaça de dois andares, no rio Tietê. A nova montagem, "Bom Retiro 958 m", ocupará um shopping, ruas ermas e um prédio abandonado na região da Luz. Caótica como outros espetáculos do Vertigem, a peça foca o que está à margem da civilização, pessoas, coisas e lugares esquecidos, a degradação.
Para Silvana, não foi só a proposta de estabelecer um diálogo entre teatro e espaço urbano que fez de Tó um pioneiro. "Ele firmou um tipo de teatro colaborativo que se disseminou. Se propôs a trabalhar não como diretor, mas como membro da companhia, abrindo a criação aos participantes."
Aí reside outra contradição. Como dirigir sem estar no comando? "Embora diga que não, ele acaba sendo o líder", diz o iluminador Guilherme Bonfanti. "O grupo se guia muito pelo que o Tó diz", conclui. Matheus Nachtergaele, que iniciou a carreira como ator em "Paraíso Perdido" (1992), peça dirigida por Tó numa igreja, o define como um "príncipe obcecado".
Após quatro encontros com Tó, duas conversas por telefone e a permissão para assistir a dois ensaios, entendo o que "príncipe" quer dizer -um espírito diplomático e conciliador, aberto a opiniões.
No último encontro, com o espetáculo quase pronto, Tó me pediu considerações sobre o ensaio. Mais tarde, por e-mail, apontei cenas que me arrastaram para a sensação de estar num pesadelo, algo que o Vertigem sabe fazer. 
Contei ainda que não havia gostado da cena final (a dramaturgia, também colaborativa, é assinada pelo escritor Joca Reiners Terron) porque texto e imagem me pareceram redundantes: duas atrizes, interpretando manequins quebradas, falavam sobre o "destino das coisas".
"Saber os pontos frágeis é o mais importante agora. Como ainda temos algum tempo até a estreia, é possível melhorar", respondeu ele, na quarta passada, convidando-me a voltar a ver a peça em cartaz, "mais amadurecida".
O termo "obcecado" resume a busca pelo aperfeiçoamento, o poder de persuasão e também a insistência em levar adiante missões que, muitas vezes, parecem impossíveis. "Algo à beira da loucura", define Silvana.
DOUTORADO 
Com esse perfil, Tó formou currículo sem igual entre diretores brasileiros: fez mestrado em teatro (2002) e doutorado em artes (2008), ambos pela Universidade de São Paulo (USP). Desde 1998, além de dirigir o Vertigem, é professor do Departamento de Artes Cênicas da ECA-USP.
Em 2009, deu aulas como professor visitante na Universidade de Giessen (Alemanha), no Centro de Especialización Teatral (La Paz) e na Association de Recherche des Traditions de l'Acteur, em Paris. Também ministrou disciplinas de mestrado na Universidade Paris 8 e na Universidade de Amsterdã.
No ano passado, quando "BR-3" foi eleito na Quadrienal de Praga o melhor espetáculo em cinco anos, o Vertigem ganhou status como grupo de projeção internacional.
"Príncipe obcecado" não era uma expressão que ele tivesse ouvido antes. Mas, durante um café na rua Augusta, tomando um cappuccino acompanhado por um generoso pedaço de bolo de chocolate, Tó reconheceu nela ao menos um traço de sua personalidade.
"Sou monotemático quando decido onde aplicar minha energia. Mas a teimosia tem seu preço." A voz mansa, levemente anasalada, não se altera, e ele não gesticula. Os olhos azuis vão fundo, concentrados, como os de um professor em sala de aula.
O preço a que se refere foi pago entre 2008 e 2010, por todos os integrantes do Teatro da Vertigem, dos quais poucos ganham mais de R$ 2.000 por mês: uma dívida de cerca de R$ 300 mil, assumida para a produção do espetáculo "BR-3", dá a medida dos problemas que podem decorrer de uma personalidade afeita a projetos grandiosos.
A maior armadilha foi o aluguel do barco-cenário, que triplicou depois que a peça entrou em cartaz. A temporada foi interrompida e Tó continuou tentando levantar recursos. Enquanto buscava patrocínio, as dívidas do aluguel de equipamentos também se acumularam. 
"Além da crise artística, e como se não bastasse termos de interromper uma temporada que já seria curta, passamos meses dando cursos para pagar a dívida."
Por ter sido encenado num trecho do Tietê, o espetáculo exigia ainda uma articulação burocrática atípica para um processo de criação artística. 
"Em 'BR-3', descobri que, para usar o pilar de uma ponte do Tietê, é preciso a ter autorização de vários órgãos públicos: abaixo da ponte, é uma secretaria; sobre a ponte, é outra", conta.
Essa burocracia acompanhou o Vertigem desde o começo: o grupo nunca trabalhou num teatro convencional, e lidar com a administração de presídios, hospitais e igrejas virou algo corriqueiro. 
"Temos que fazer o administrador do hospital [caso de 'O Livro de Jó'] entender o que queremos ali. Alguns acham que queremos o auditório do hospital. Depois de explicar que o auditório é o único lugar que NÃO queremos, precisamos fazer com que concordem."
As resistências já levaram a cancelamentos, como quando foram convidados a apresentar "O Livro de Jó" no festival de Edimburgo. A organização pagava toda a viagem, mas não houve hospital que aceitasse a ideia.
ATRITOS 
O número de artistas envolvidos e o processo de criação em si (que se alimenta de depoimentos e da colaboração dos integrantes) não raro geram atritos. "Tó não é só alguém que sabe gerenciar crises. É um diretor que parece se alimentar da crise", diz o escritor Bernardo Carvalho, que participou do processo de elaboração da dramaturgia de "BR-3". 
"Uma das melhores apresentações de 'BR-3' foi um ensaio aberto em que deu tudo errado: chovia forte, e os atores pareciam lutar contra eles mesmos, contra a parafernália que usavam, o equipamento de som, os microfones, os holofotes de luz, que apagavam."
O escritor diz que a princípio resistiu à ideia de se envolver em um processo colaborativo, cuja metodologia incluiu viagens a regiões pobres e cerimônias do Santo Daime. Diante da insistência de Tó, acabou topando. "A certa altura, senti que o grupo havia se voltado contra mim. Eles me odiavam, queriam interferir na dramaturgia, e eu não cedia em alguns pontos. Uma das atrizes deixou o projeto por minha causa. Não fosse o tom conciliador dele, eu não teria ficado", diz Carvalho.
Dentro do sistema de criação, as crises derivam principalmente de embates de opinião entre os participantes. Todos são coautores. Todos propõem cenas, com base em um norte estabelecido pelo dramaturgo ou pelo encenador, a partir de percepções sobre uma realidade específica. Isso explica por que o diretor, onde quer que vá, está sempre com um caderninho. "A imagem que tenho do Tó é ele fazendo anotações", diz Bonfanti.
Para criar "Bom Retiro 958 m", foram feitos seminários sobre os moradores do bairro na sede da companhia, no Bexiga.
Depois, os integrantes elaboraram uma metodologia de criação que incluiu as chamadas "derivas", caminhadas pelas ruas da região.
Cada ator, diz Tó, "experimentou" o bairro, por meio de passeios sempre solitários, realizados inclusive durante as madrugadas. "Após as 23h, o bairro fica bem vazio. Mas não senti medo. Claro que você chega em alguns lugares ermos e pensa 'ai, meu Deus'. Mas não houve situação de risco com ninguém do grupo."
O diretor descreve o Bom Retiro como um lugar marcado por movimentação intensa entre 8h e 19h, por conta do comércio; e escuro, embora "ainda vivo", à noite, com gatos pulando muros, ratos por todo lugar, pedestres de passos apertados, caminhões de lixo cujo motor ecoa no silêncio. "Você tem a impressão de que o Bom Retiro é um lugar que existe só durante o dia, e que à noite é um bairro morto. Isso é equivocado", reitera.
A maior parte dessa pesquisa de campo funciona apenas como gatilho para a criação, diz o diretor. "Uma pequena parte é efetivamente incorporada à cena, mas as descobertas ficam com você. Como ator, como diretor, você não sai impune." A experiência, conclui ele, é algo que contamina.
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